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Papel de “princesa” é cada vez menos apelativo para as mulheres

Os casamento reais reforçam estereótipos de género, valorizando o "apagamento" da mulher, mas o papel de "princesa" é cada vez menos apelativo às mulheres, que encontram no mundo do espetáculo um "sonho" em que não perdem a "autodeterminação". A propósito do casamento do príncipe William de Inglaterra com Kate Middleton, académicos especialistas em questões de género e feministas apontaram para uma crescente desvalorização social da figura da princesa.

Hoje há um sonho muito mais ligado à autonomia, à autodeterminação, com uma identificação maior com cantoras, atrizes, modelos. São papéis que remetem para o poder social e liberdade", defendeu Sofia Aboim Inglez.

A socióloga, especialista em questões de género, considera que às mulheres, particularmente mais jovens, é pouco atrativo "o rigor e austeridade que uma princesa tem que demonstrar", existindo, por outro lado, "um maior ceticismo" em torno dos casamento reais, patente na exploração por parte da chamada imprensa cor-de-rosa do "lado podre da realeza".

Reforço de estereótipos

Se é verdade que os casamentos reais "vão-se adaptando a novas realidades", e "não é por acaso que já não será exigido à nova princesa um teste de virgindade", enquanto há 30 anos isso constituiu um assunto a propósito do casamento da princesa Diana, os casamento reais insistem "no reforço de estereótipos", aponta a vice-presidente da UMAR, União de Mulheres Alternativa e Resposta.

"Os contos de fadas têm caráter não só lúdico mas sobretudo regulador que vai bombardeando as crianças, com regras restritas de género, de classe ou de sexualidade. Os casamentos reais também, mas vão-se adaptando a novas realidades", defendeu Salomé Coelho.

O contexto dos casamentos reais e dos contos de fadas remete para um elogio ao "apagamento" da Mulher, não sendo a entrada de plebeias questionadora dos estereótipos, diz Salomé Coelho, já que nos contos de fadas também era essa ascensão social que construía a narrativa, mas até pelo contrario, porque que mulheres como a princesa das Astúrias, tiveram que deixar de trabalhar.

"Uma mulher é tão mais valorizada quanto é capaz de apagar a sua individualidade em função do novo marido, que é príncipe, implicando entrar no seu mundo e viver segundo essas regras. Mais, como a pequena sereia, que até o corpo transforma para se adaptar ao amado, é responsabilidade das mulheres moldarem-se, paciente e persistentemente, aos príncipes, sob pena da relação não ter um final feliz", argumentou.

Contos de fadas

A socióloga Cristina Duarte, do centro de estudos sobre a Mulher da Universidade Nova de Lisboa, sublinha que quando se pensa numa princesa é com esforço que se chega a uma cidadã.

"De que falamos quando falamos de princesas? De família real, de transmissão cultural, de ficção quotidiana, de contos de fadas. Só em último lugar, de mulheres e de cidadania", afirmou.

Para o antropólogo Miguel Vale de Almeida, eventos como os casamentos reais veiculam a "péssima mensagem" de que "a iniciativa e a decisão, em tudo na vida, cabe aos homens, e que elas podem ser ‘agraciadas’ pela escolha daqueles, sobretudo os poderoso, em função da beleza das raparigas".

"Algumas mulheres" poderão "sentir ainda fantasias românticas desse tipo, mas certamente enquanto memórias de infância", considerou.

Para Salomé Coelho, "caberá mudar a história" não só aos príncipes e princesas, mas também aos consumidores destas narrativas "que reproduzem as desigualdades das pessoas nas hierarquias do poder, os estereótipos de género e o poder patriarcal".
 

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