A Familia

O Ciúme: duas perspectivas

Foto Hugo Santos

1 – O que é o ciúme?
O ciúme é uma reacção a algo que é sentido como uma ameaça à relação.
Esta activação interna inclui emoções, pensamentos e sensações, sentidas como desagradáveis.
Este conjunto de respostas pode ter uma intensidade, frequência e duração variáveis, consoante vários factores (a pessoa que sente o ciúme, o outro que é alvo desse sentimento, a relação, o contexto e a ameaça em concreto).
Poderemos igualmente definir o ciúme como um sentimento negativo despoletado face ao risco percepcionado de perda (perda do objecto amado e/ou perda da auto-imagem do eu).
2 – Ciúme e amor, podem coexistir e sobreviver numa relação?
Poderá haver amor e ciúme numa relação, se traduzirmos o conceito de ciúme apenas por insegurança em perder o outro, e se a resposta a este não passar apenas pela lógica de posse mas sim por um investimento nos três elementos de uma relação: o eu, e tu e o nós.
3 – Quando é que o ciúme se pode tornar uma obsessão?
A fronteira por vezes é ténue e poderá ser comparada, metaforicamente, com o póker.
Imaginemos que estamos numa mesa de póker e fazemos uma aposta. No entanto, não estamos com sorte e perdemos o dinheiro apostado. De seguida apostamos outra vez. Mas continuamos a perder e a perder. Sentimo-nos inseguros e temos dois caminhos: parar e sair de jogo, ou avançar. Por vezes avançamos, na lógica do tudo ou nada, e irracionalmente vamos apostando mais do que deveríamos.
O jogador desesperado perde a capacidade de pensar, de ler os sinais, de gerir as emoções, de calcular riscos, de avaliar ganhos e perdas, e simplesmente deixa-se ir pelo medo de perder, aumentando impulsivamente a aposta.
O ciclo pode ser vicioso e muito destrutivo.
4 – Como controlar o ciúme?
Controlar o ciúme poderá não ser nada simples.
Sugiro uma escala simples de auto-avaliação: o Semáforo do Ciúme.
No campo dos ciúmes, podemos avaliar se o semáforo está verde, laranja ou vermelho.
Se o que sentimos, em termos de ciúmes, é algo tranquilo e não mais do que uma ligeira insegurança, o sinal está verde e é seguir em frente.
Se o ciúme passa para laranja, e essa insegurança se prolonga no tempo e a intensidade aumenta, passando a dúvida, temos que abrandar.
Se está vermelho, se contamina o pensamento, distorce a percepção, transforma-se numa desconfiança constante, temos mesmo que travar o ciúme. Nesse caso é esperar pelo verde.
Claro que se a velocidade for maior, o piso for escorregadio e a distância do carro da frente for pequena, a probabilidade de um acidente é maior.
Avalie, no seu campo dos ciúmes, qual a frequência com que o seu semáforo está verde, laranja e vermelho, e o quanto isso incomoda o seu tráfego dos afectos, se congestiona a sua relação ou se provoca incidentes ou colisões.
Se o seu Semáforo dos Ciúmes tiver a luz verde fundida ou se na maior parte do tempo só acender o laranja e o vermelho, então o melhor será mesmo procurar ajuda.
5 – Ciúme é natural, fazendo parte de todas as relações?
Sentir ciúme é natural, assim como é natural não o sentir. A diversidade do reportório emocional do ser humano é imensa.
Assim, existe (1) quem o sinta de forma tranquila ou positiva na relação, (2) quem contamine a sua capacidade de se relacionar por o viver obsessivamente, e (3) há quem não sinta nem uma pontinha de ciúme.
A combinação destas possibilidades de sentir o ciúme numa relação pode igualmente ser tranquilo ou explosivo. Imaginemos uma pessoa que tende para a desconfiança e tem muitas dificuldades em confiar no outro, numa relação com alguém que é anti-ciúme e detesta ser controlado nem tolera a desconfiança. O resultado pode ser bem complicado.

6 – Pode florescer felicidade onde impera o ciúme?
Dificilmente. Se o ciúme impera a relação torna-se um pesadelo para ambos. O ciumento não vive descansado e sente dúvidas constantes, vendo inúmeras situações como ameaçadoras. Quem é alvo de ciúmes até treme quando recebe um convite de colegas, quando tem que trabalhar até mais tarde ou quando sai de casa mais bonito. Por vezes desliga-se desse sentimento mas só quando está mais longe do ciumento. Tenderá assim, com o tempo, a associar felicidade aos momentos em que não está com o outro.
Esta circularidade de acontecimentos poderá ter um efeito de bola de neve e se não for quebrado o padrão do ciúme a infelicidade impera na relação.
7- Ciúme, TEMPERO ou VENENO do Amor?
Gostos não se discutem por isso cada um poderá aplicar, em conjunto com o outro, o tempero que desejar na relação.
Como acontece na alimentação, no campo dos afectos é importante nutrirmo-nos de coisas saudáveis. Poderemos ter excessos de vez em quando, ou alargar o nosso paladar a diversos menus.
No entanto, se o tempero for continuadamente excessivo poderá intoxicar a relação e o amor.

Hugo Santos
Psicoterapeuta

 1 – O que é o ciúme?
As definições do que será o ciúme, compartem alguns elementos centrais: é uma reacção frente a uma ameaça real ou imaginária, e visa eliminar os riscos da perda do ser amado.
Entrando na intimidade deste sentimento, vamos descobrir que ele é “medo”, medo de algum dia ser dispensável à pessoa com a qual se relaciona; é o medo de ser abandonado, rejeitado ou menosprezado; medo de não ser mais importante, medo de não ser mais amado, sendo de certa forma, medo da solidão.
2 – Ciúme e amor, podem coexistir e sobreviver numa relação?
Lado Positivo do Ciúme: Protege o Amor. Nos relacionamentos onde os sentimentos de ciúme são moderados e ocasionais, ele recorda ao casal que um não deve considerar o outro como definitivamente conquistado. Pode encorajar casais a fazer com que se apreciem mutuamente e façam um esforço consciente para assegurar que o parceiro se sinta valorizado.

3 – Quando é que o ciúme se pode tornar uma obsessão?
O ciúme pode ter um forte lado negativo: Prejudica o Amor. Ás vezes os sentimentos de ciúme podem ser desproporcionais, excessivos e irracionais, podendo afectar gravemente uma relação.
A arte de viver consiste em ter a emoção como motor e a razão como leme. Assim a emoção motiva-nos e a razão orienta-nos. Neste sentido, o ciúme pode ser um “motor” útil que nos leva a ser cuidadosos com nosso objecto de amor, mas sempre lembrando que cuidado não quer dizer controle, nem domínio. Por ser instintivo, o ciúme é verdadeiro e deve merecer o nosso respeito; mas é também irracional e precisa ser examinado e aceite pela razão. Respeito não significa aceitação. Neste sentido, o ciúme quando não temperado pela razão torna-nos possessivos e destrutivos.
4 – Como controlar o ciúme?
O problema é que a maioria das pessoas ou não admite que está com ciúmes ou não fala sobre o que está a sentir e a pensar. E, assim, consumida por esses pensamentos que vão crescendo e tomando conta de todos os demais sentimentos que existiam antes, passa a agir de forma agressiva e desconfiada, fazendo acusações que mascaram o seu medo de perder a pessoa amada.
Portanto, sugiro que o ciúme não seja um “bicho-papão” correndo atrás do amor. Mas que ele seja o que é: um sentimento que deve ser cuidado, sobre o qual deve ser conversado.

5 – Ciúme é natural, fazendo parte de todas as relações?
Dizem que um pouco de ciúme apimenta a relação. Penso que isto se refere ao facto de não sermos indiferentes ao parceiro, porque nos importamos com ele. Sentir ciúme, pelo que, ou por quem gostamos é natural, faz parte do cuidado, do querer bem e do ser amado.
O ciúme deixa de ser normal, quando passa a dominar o relacionamento, e uma relação prazerosa transforma-se numa relação de sofrimento. A partir deste ponto já não existe nem cuidado nem zelo pela pessoa amada, mas antes controle e desconfiança.

6 – Pode florescer felicidade onde impera o ciúme?
A felicidade pode ser sentida a partir do momento em que os níveis de ciúme estão equilibrados, ou seja, sentir ciúmes é normal, tão normal como sentir saudades. Assim como a saudade, o ciúme é um sentimento normal quando surge como resposta a uma situação real, imediata com duração limitada a um tempo que nem sempre é definido, porém certamente limitado. Quando o ciúme se prolonga no tempo e aumenta intensidade, a felicidade deixa de florescer.

7- Ciúme, TEMPERO ou VENENO do Amor?
Ciúme pode ser o Tempero do Amor, mas também pode destrui-lo. O difícil por vezes é encontrar o equilíbrio para não fazer quem se ama, passar do amor ao ódio, por algo que não vale a pena, por ser fruto apenas dos nossos medos e inseguranças.
Aprender a confiar também faz parte do crescimento de uma relação. Parte muito importante, pois acima de tudo temos de aprender a confiar no nosso amor. Se isso acontecer, o nosso coração fecha-se e nada entra a não ser o que quisermos e deixarmos, pois estaremos em completo domínio de nós, sem qualquer tipo de interferências.

 


Joana Carvalho
Psicoterapeuta
 

 

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