Crónicas de Engate

Bacalhau à Brás – Ivar Corceiro

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Um homem não convida uma mulher para jantar a não ser que a queira levar para a cama, o curioso é que a convida mesmo quando acha que tem poucas hipóteses de o fazer. Ele diz-lhe isto assim, enquanto dá mais uma garfada no Bacalhau à Brás que aprendeu a fazer ontem num site da internet só para ver se a impressionava. 

Impressionou, mas acha que não foi por causa dos seus dotes na culinária. Impressionou-a porque lhe acabou de dizer, sem qualquer tipo de rodeios, que quer ter uma noite de sexo com ela. E quer mesmo, se possível logo a seguir à sobremesa.
Ela parou de mastigar o bocado de peixe, ovo, batata frita e salsa que tem na boca. Não sabe se está mais espantada pelo convite directo ou por ele achar que tem poucas hipóteses com ela. Se acha pode ser por dois motivos: ou por ela ser amiga da ex-mulher dele ou por ele ser amigo do ex-marido dela. Ou ambos, pensando melhor. Está aberto o jogo. Um homem está quase sempre disponível para uma noite de sexo descomprometido, a mulher está às vezes. Ele sabe disso e ela também.
Outra coisa que os dois sabem é que ninguém se apaixona logo a seguir a um divórcio. Pode apaixonar-se antes ou muito depois, logo a seguir é que não. Mas querer ter uma noite de sexo é legítimo, nem que seja para fingir que ainda se consegue amar alguém. A diferença é que ele não quer perder tempo com pormenores. Quer comer o bacalhau primeiro e depois comê-la a ela. Ponto final. Ela, mesmo sem arder de paixão, preferia que ele tivesse a sala a meia luz, uma música calma em vez do televisor ligado num canal qualquer, talvez uma flor para a receber e pelo menos que os guardanapos na mesa não fossem de papel. Depois sim, comê-lo a ele.
Para conversar não têm grande tema. O que têm é um passado comum no qual sentem que não devem tocar. Fazê-lo seria patinar num universo em que se encontravam sem mostrar qualquer interesse um pelo outro, e é demasiado estranho andar anos a jantar com a mulher do amigo sem um piscar de olhos que seja para depois, à primeira oportunidade pós divórcio, saltar-lhe em cima. Ela acha o mesmo, claro, que isso põe em causa aquilo a que se habituaram a chamar Amor.
Mas pensando em Amor está tudo em causa neste momento. Estão os dois a atravessar o deserto que é o processo doloroso de qualquer divórcio e por acaso encontraram-se para jantar num pequeno e raro oásis. Resta o Bacalhau à Brás, um pudim de chocolate de pacote e talvez mais uma garrafa de vinho. Resta o que resta de cada um deles. Ela desliga o televisor e apaga a luz da sala. Enche os copos com o líquido do Deus Baco e dá-lhe a mão para o guiar até ao sofá. Se ele souber beijá-la e acariciá-la como se a amasse mesmo, antes de lhe tentar tirar o sutiã e as cuecas, a noite está ganha. Do sofá irão para a cama. Senão também está. Talvez dêem um rapidinha no sofá e depois ela sai porta fora para não voltar. Decidiu isso agora.
Mas ele sabe. Claro que sabe. E por isso beija-a pianando-lhe os lábios em notas soltas humedecidas pelo vinho, devagar até que ela própria se humedeça também. Depois deitam-se no chão onde acabarão por adormecer um dentro do outro, embalados pela doce sensação que é não terem um compromisso. Amanhã, quando as primeiras lâminas de luz atravessarem os buracos da persiana, ainda ali estarão. Pela primeira vez amantes depois de tantos anos amigos

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