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Até que o Facebook nos separe

Toda a gente já ouviu falar de relacionamentos que começaram pela Internet. Parece que o contrário também é válido. Cada vez mais relações acabam – algumas de forma bem pública – pela Internet. As redes sociais poderão estar a potenciar estas rupturas. A mensagem não podia ser mais clara: “Neil Brady terminou o seu casamento com Emma Brady.” Só havia um problema: a britânica não sabia que o seu marido se queria divorciar dela. Pior: só ficou a saber quando uma amiga lhe ligou, para a consolar. Nessa altura já a mensagem do marido naquela rede social tinha um comentário de uma canadiana dizendo: “Estás melhor sem ela.” Não é preciso ser Paula Bobone para se perceber que este mundo das redes sociais poderia em muito beneficiar com uns toques de etiqueta. Falar com o cônjuge antes de anunciar o divórcio ao mundo é uma regra tão básica como não comer com as mãos. Depois há a história de Amy Taylor e de David Pollard. Conheceram-se através do jogo de realidade virtual Second Life. Eram ambos fãs deste mundo paralelo. Tão fãs que, quando se casaram na vida real, também se casaram, ao mesmíssimo tempo, na vida virtual. Ironicamente, o Second Life veio a separar aquilo que o Second Life tinha juntado. Parece que David andava envolvido – apenas virtualmente – com outros avatares femininos do Second Life aMulher. Apanhado em flagrante, David assumiu as suas infidelidades e o casamento acabou. Soube-se entretanto que Amy conseguiu refazer a sua vida, ao lado de um outro homem que conheceu em mais um jogo de realidade virtual: o World of Warcraft. “Eu sei que parece loucura, mas comigo funciona”, disse Amy, citada pelo site noticioso australiano News.com.au. Num mundo em que mais de 600 milhões de pessoas interagem diariamente via Facebook, estranho seria que daqui não resultassem relações amorosas. Não sabíamos com certeza é que esta rede social potencia também os divórcios. Não sabíamos até agora. Um advogado britânico, Mark Keenan, director-geral de um serviço de advocacia especializado em divórcios, o Divorce Online, resolveu fazer uma pesquisa e concluiu que, actualmente, um em cada cinco casos de divórcio cita o Facebook como motivo da ruptura. “Eu já tinha ouvido dos meus colegas que cada vez mais pessoas pediam o divórcio por causa de coisas que apanhavam nos perfis de Facebook dos seus cônjuges e por isso decidi perceber a prevalência do fenómeno”, disse Keenan, citado pelo jornal britânico The Daily Telegraph. Analisando cerca de cinco mil casos da base de dados da sua firma em busca da palavra “Facebook”, o advogado descobriu perto de mil correspondências: “Fiquei realmente surpreendido por ver que 20 por cento de todas as petições continham referências ao Facebook.” A razão mais comum parece ser as pessoas terem conversas inapropriadas acerca de sexo com quem não era suposto terem estas conversas”, refere Keenan. Em busca de informações acerca da realidade portuguesa, o PÚBLICO falou com o advogado Ricardo Marques Candeias. Na sua prática do dia-a-dia tem notado um aumento dos casos de pedido de divórcio que citam as “infidelidades” via Facebook como uma das razões para a ruptura, embora não tenha estatísticas que suportem esta sua opinião: “Não tenho dados concretos sobre isto mas, empiricamente, por aquilo que constato na prática, tenho notado um maior número de casos de divórcio relacionados com as redes sociais em faixas etárias mais jovens, digamos entre os 25 e os 45 anos. Nestas idades tem-se tornado muito comum.” Ricardo Marques Candeias recorda-se de um caso em particular em que um homem e uma mulher disputavam na justiça um divórcio litigioso [modalidade anterior à actual, que prevê – desde 2008 – o divórcio sem consentimento]: “Recordo-me de um caso em que o divórcio foi até ao fim, ou seja, o marido apresentou provas de mensagens trocadas entre a mulher e um amante, e foi a ela que foi imputado o ónus da responsabilidade pelo fim da relação por ter quebrado os votos de fidelidade e respeito. Porém, ela contra-atacou e apresentou uma queixa-crime contra ele por violação de privacidade. E esse caso ainda está a ser discutido.” Conflito de direitos A pergunta pertinente a ser colocada aqui é esta: as provas de infidelidade – nas quais se poderão incluir as mensagens trocadas via Facebook – valem como prova em tribunal? A resposta é: depende. Em conversa telefónica com um outro advogado, Rui Alves Pereira, da firma PLMJ, o PÚBLICO apurou que, por um lado, estamos aqui no território da ponderação caso a caso e que, por outro, o Facebook é uma arena mais pública que privada. Diz Rui Alves Pereira: “Há aqui um conflito de direitos. Isto é: a reserva da intimidade da vida privada deve prevalecer sobre a verdade em descobrir um determinado tipo de processo? Este é o conflito que pode ocorrer e que tem sido discutido. Aquilo que se tem entendido é que, se não houver outra forma de se provar que esta pessoa está a cometer adultério, eu posso dar este tipo de elementos como prova. Mas é preciso fazer uma ponderação caso a caso.” Paralelamente, adianta o advogado, “é preciso ver que o Facebook é uma realidade completamente diferente das cartas e dos emails”. “Não ignoro que os perfis do Facebook estão adstritos a um conjunto de amigos, mas eu diria que se alguém troca mensagens de índole amorosa no Facebook não poderá ignorar que este é um meio mais público e portanto o uso destas mensagens em tribunal pareceme mais pacífico do que o uso de cartas e de emails pessoais.” “Atitude masturbatória” Num século em que tudo é feito ao segundo e onde não há tempo a perder, constroem-se e destroem-se relações sem tirar os olhos do ecrã. E depois há aquele fascínio generalizado por encontrar velhos amigos e colegas de escola, que o Facebook tão bem soube capitalizar. Foi precisamente a pensar em todos aqueles que querem encontrar um novo (ou velho) amor através das redes sociais que o americano Dan Loewenherz criou a aplicação Breakup Notifier, que se propunha a avisar os seus clientes quando um amigo da lista de contactos no Facebook terminasse uma relação e mudasse o seu estado civil. Qual foi o problema? Escassos dias depois de ir para o ar, a aplicação foi bloqueada pelo próprio Facebook, que se reserva o direito de excluir as aplicações que, por um motivo ou outro, considera danosas para o seu “ecossistema” online. Chegámos assim ao século XXI. Acelerados, querendo saber tudo ao minuto e ávidos de informação que nos chegue mastigada ao browser. Em declarações ao PÚBLICO, Manuel Peixoto, terapeuta familiar e de casal, parece concordar com este pressuposto: “Hoje em dia não há capacidade de espera. Estamos na era ‘eu quero e avanço logo’. As pessoas não conseguem conter o desejo nem a emoção e, claro, nesse aspecto as redes sociais precipitam relacionamentos e divórcios. Todos estes mecanismos de comunicação rápida não facilitam o raciocínio e a toma de decisões de uma forma mais tranquila.” Até que o Facebook nos separe Comentários0 Facebook1 Twitter0 Na opinião deste especialista, membro da Sociedade Portuguesa de Terapia Familiar, as culpas devem ser assacadas aos próprios indivíduos e não à Internet. Na sua opinião, em casos de falta de maturidade emocional, o divórcio é um desastre à espera de acontecer. Com Facebook ou sem ele. “As pessoas que não conseguem ter uma verdadeira relação de maturidade com outro ser humano ver-se-ão naturalmente mais tentadas a usar as redes sociais para fantasiar. E isso naturalmente provocará mais divórcios. Não porque o Facebook em si promova divórcios mas porque as pessoas que têm acesso de uma forma defeituosa àquilo que é virtual estão numa atitude masturbatória e não de relação com o outro. Esses casos estavam destinados ao fracasso de qualquer maneira. Mais cedo ou mais tarde. No meu ver, nestes casos, as redes sociais limitam-se a precipitar aquilo que inevitavelmente aconteceria.”
Texto originalmente publicado na Pública

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