Saúde & Beleza

As fanstásticas mulheres dos ‘entas’

entas

Nem sempre enquanto somos miúdos, ouvimos aquilo que os nossos pais nos dizem e, na verdade, é difícil prever de entre a quantidade enorme de frases, avisos, pedaços de informação, confidências e afins, aquilo que vai ficar retido na nossa memória… para ser lembrado alguns bons anos mais tarde.

Vou revelar-vos em que contexto me recordei recentemente de uma frase que ficou  guardada a sete chaves num qualquer espacinho de memória durante muito tempo.
Recordei desta frase, exactamente há 5 dias atrás no dia em que fiz 37 anos; esteve guardada durante 22 anos, ouvi-a exactamente no dia 15 de Fevereiro de 1988, dia em que a minha mãe fez 40 anos.
Se está neste momento ansiosa por saber que afirmação causou um tal impacto, espere só mais um bocadinho, para eu lhe contar em que contexto surgiu, já que este aspecto ajudará certamente a perceber a sua relevância.
Somos uma família grande, com tios, primos, avós e pais espalhados por todo o mundo. O dia 15 de Fevereiro de 1988 era aguardado com grande ansiedade e entusiamo por todos. A família ia organizar uma grande festa, com música, muitos convidados que eu nem sequer conhecia, comes e bebes preparados com dias de antecedência.
O acontecimento era importante: a minha mãe era a primeira das manas, primas e amigas da geração a fazer a mítica idade de 40 ANOS!!!!
Eu já era crescidinha para perceber o que isso significava: o terror de milhões de mulheres por todo o mundo!!! Para mim, de tudo o que ouvia e lia, era aquela idade em que se começa a pintar o cabelo mês sim, mês não para esconder os inevitáveis cabelos brancos; em que surgem as preocupações com a menopausa, do tipo afrontamentos e rugas a saltarem que nem pipocas; ou a altura em que as peles caem e os músculos fogem do lugar a que nos habituámos a achar que pertenciam por natureza, ou em que aparecem os medos das infidelidades e consequentes crises de ciúmes e discussões de faca e alguidar. Ou seja, um cenário de terror a rivalizar com o fogo perpétuo.
Nesse dia, eu estava perplexa! Do alto da minha adolescência, em que tudo parece um frete e os pais são uns cotas chatos desligados do mundo tal como conhecia, não compreendia porquê tanta alegria para uma festa que comemorava a chegada desta enorme fatalidade. Mas a verdade é que a minha mãe _ a tal sobre quem tal fatalidade se iria abater dali a apenas algumas horas _ estava absolutamente radiante! Dançou, conversou, comeu, bebeu riu, e animou as hostes como se estivesse a entrar na melhor fase da sua vida.
Foi na altura do habitual discurso – até isso ela suportou muito melhor do que já havia feito toda a sua vida – que ouvi, no meio de agradecimentos e beijinhos para uns e outros, a frase que me ficou tão marcada durante estes anos todos…
“Ora bem, estou então a entrar nos ‘entas’, a idade da qual já não se sai” (rapidamente fiz os meus cálculos e achei que estava certa, quarentas, cinquentas, …se chegarmos aos noventas, já é uma grande sorte! Ou não…) e aí acrescentou o que para mim me pareceu um insight fantástico “agora que já não sou obrigada a ser jovem, divertida, espectacular para tudo e todos porque já ninguém espera isso, vou aproveitar cada um destes dias para ser eu mesma… e se calhar ainda vos surpreendo!”.
Com alguns altos e baixos, avanços e recuos, tristezas e alegrias e algumas traições à promessa em momentos mais complicados, esta frase ainda continua a ser verdade à sua maneira. Estas mulheres quarentonas e cinquentonas que vivem bem a sua idade estão por todo o lado e não estou apenas a falar das Sharon Stone e Julia Roberts deste mundo. Basta olhar com um pouco de atenção para ver uma destas “fantásticas mulheres dos ‘entas’” bem perto de si e não apenas nas revistas.
Agora que estou com 37 anos, a caminhar a passos largos para os ‘entas’, sinto que esta ideia me moldou a forma como penso sobre a idade e esta coisa do envelhecimento de forma ténue e inconsciente mas muito profunda. Na verdade, no dia em que fiz 37 anos, pareceu-me tão sensata e tão cheia de sentido como há exactamente 22 anos atrás no dia 15 de Fevereiro de 1988.

Idades, envelhecimento, crescimento e desenvolvimento

Esta história enquadra-se bem naquilo que eu, de forma simpática chamo a “histérica obsessão pela juventude”. Infelizmente este mal também deixou as suas marcas na psicologia. Quase todos os autores que se interessaram pelo tema do desenvolvimento humano – para a leitora, mesmo que não psicóloga, talvez o nome Piaget não lhe seja estranho – faziam parar o desenvolvimento no início da adolescência, como se a partir daí estivéssemos “prontos” ou “finalizados”. Até há bem pouco tempo, a chamada “vida adulta” era vista como um período de estabilidade, nem sempre com a conotação mais positiva.
Mais recentemente, muito por influência das visões mais humanistas e mais globais que olham para o ser humano enquanto ser biológico, psicológico e social, vários estudos mostram que a idade adulta é na verdade muito dinâmica, marcada por várias transições e transformações. Esta questão prende-se muito com uma dúvida que tenho há algum tempo: a partir de que idade é que deixamos de crescer e do nos desenvolver para começarmos a envelhecer? Há uma idade certa? É aos 30? Aos 40? Porquê?!?! Não estamos a falar exactamente da mesma coisa; ou seja, um dia após o outro, um ano a seguir ao outro…

Dicas e reflexões de uma mulher, psicoterapeuta, vertiginosamente a caminhar para os fantásticos ‘entas’

Para si, que está a chegar aos 40’s, desafie todos os mitos, lendas e historietas que conhece e lembre-se:
– Não deixe que a rotulem! Adopte o seu próprio rótulo… ou não adopte nenhum! Eu, por mim, já decidi, estou a crescer e a desenvolver-me tal como estava há 1 minuto, 1 dia, ou 1 ano atrás. No dia em que decidir que estou a envelhecer, pois que seja!
– Aceite as transformações inevitáveis com serenidade! É claro que o corpo vai mudar, e que às vezes é uma chatice, mas nestas coisas que não podemos controlar, aplico o mesmo princípio que ao das possíveis catástrofes da vida: não vou gastar as minhas energias a preocupar-me com aquilo que não posso mudar. Pense nisso, talvez seja mais importante aplicar toda a sua energia a fazer planos, escolhas, cuidar da sua saúde e de si.
– Cuidado com os truques e promessas de vida e juventude eterna. Se calhar o truque não é tanto tentar parecer ter 20 anos, mas sim estar melhor do que aos 20 anos, sabendo que não os tem. Aposte no que a faz sentir bem, por si e para si.
– Faça planos a curto, médio e longo prazo e nunca deixe de pensar “o que eu quero ser quando crescer…”. As possibilidades de mudar, fazer escolhas, reinventar-se são tão poucas ou tantas como há 20 anos atrás. Na verdade, depende mais da sua cabeça do que da sua idade!
– Aprenda a conhecer e a desafiar o seu diálogo interno de “bota-abaixo” acerca da idade e dos seus efeitos.
De cada vez que pensa numa perda associada à idade, obrigue-se a pensar o que ganhou com a idade. Provavelmente vai surpreender-se consigo mesma!
. Se der consigo a pensar algo do género “já não tenho idade para…”, procure no dicionário, biblioteca, google, em todas as fontes de informação que conseguir arranjar quais a directrizes concretas acerca da idade para parar de fazer isso mesmo. Na verdade, se pensar bem, a idade serve de desculpa genuína para muito pouca coisa…
. Se alguém lhe disser algo do género “já não tens idade para…” responda prontamente “quem disse? Onde está escrito isso?”
. Quando der por si a pensar que já passou metade da sua vida, atreva-se a pensar na sorte que tem de ainda ter metade da vida para gozar, com toda a sabedoria, experiência e conhecimento que conseguiu acumular na primeira metade!

Drª Patrícia Aguiar

Sobre o Autor

aMulher

aMulher

A equipa de aMulher.com

Deixe o Seu Comentário