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Angelina Jolie: “Disse-lhes que não ia estar à altura, mas consegui”

É difícil tentar imaginar o que está a fazer Angelina Jolie neste preciso momento. Pode estar a planear ter mais filhos, além dos seis que já tem; a fazer coisas de mãe ou de namorada; estar numa missão da ONU ou da UNICEF ou em busca de apoios para salvar uma espécie animal em risco. Ou até novamente a planear um filme com Clint Eastwood, isto é, se não estiver em conversações com os estúdios de Hollywood para fazer de Cleópatra. Na conversa connosco, garanto que estava em Cancún. De noite, no bar, pede apenas água. É saudável. As crianças brincam na piscina, à exceção da Zahara, de corpo estreitinho e mais nadadora do que um peixe. A mãe, deusa das multitarefas, aparece agora numa aventura espetacular de título "Salt". Jolie faz de agente secreta americana. Não, espera! Faz de espia russa. Bom, com esta mulher nunca sabe. O melhor é ver para perceber como, aos 35 anos, ela pode valer os 20 milhões de dólares que lhe pagam por filme.

Quem olha para a sua personagem no filme "Salt" não descortina fraquezas nenhumas. E, de perto, também não as encontro. Vou precisar que me diga quais são os seus defeitos.
Tenho muitos. Mas não vou estar aqui, agora, a realçar cada um deles. Os meus pontos fracos acabam por ser também os meus pontos fortes. Por exemplo, a minha família. Não imagino que conseguisse viver se alguma coisa lhe acontecesse. Ficaria despedaçada, tanto é o amor que sinto por eles. A ideia de que possam estar a correr perigo, ou menos bem de saúde – enfim, coisas normais nesta vida e que acontecem todos os dias a muita gente – deixa-me absolutamente de rastos.

A reeducação das crianças de maneira a que se infiltrem no inimigo, tipo criança guerreira, achei um pesadelo no filme. Chegou a estudar o sistema soviético de espionagem para ver se tal método foi realmente usado?
Não dediquei muito tempo a esse aspeto. Embora esta história tenha aspetos reais – sempre fui uma grande fã do James Bond e do Jason Bourne, que eu considero serem agentes menos fantasiosos do que outros mais em voga – o filme foi feito com o objetivo de entreter. Ou seja: fomos cautelosos na maneira como retratámos os agentes inimigos, e tivemos muito cuidado em não apontar o dedo e culpar uma nação. Por mim, adoro a Rússia. Sinto-me sempre bem quando lá vou. Aliás, estou muito contente por as relações entre os Estados Unidos e a Rússia estarem a passar por uma fase de grande cooperação e diálogo. Com o filme, estamos ali para entreter. Mas recorremos, como pano de fundo, às muitas histórias pessoais e extraordinárias que muita gente conta dos tempos em que a guerra fria atingia o rubro. É um universo fascinante.

Só mencionei aquele aspeto porque há, de facto, muitos sistemas políticos que sujeitam as crianças a verdadeiras lavagens ao cérebro. Tiram as crianças aos pais, à força, e vão transformar essas mesmas crianças em granadas úteis ao regime.
Sem dúvida. Mas, durante as filmagens, de quem me lembrei foi do meu filho Pax. O Pax tinha três anos quando o vimos pela primeira vez, num orfanato do Vietname. O método era este: a comitiva do orfanato e os pais potenciais vão pelo corredor fora, depois entramos num dormitório em que há cerca de 20 caminhas metálicas, e no momento em que a enfermeira bate as palmas, quando vamos a entrar, as crianças levantam-se, descem da cama para o chão e colocam-se em fila indiana. O momento em que ele me partiu o coração foi quando tentámos dar-lhe um ursinho de peluche. Gostou imenso. Mas devolveu-me o boneco, com a enfermeira a explicar que ele não estava habituado a ter coisas só dele. Não é que o Vietname tenha feito um mau trabalho nos orfanatos. Viviam-se momentos de crise, havia muitas crianças e uma maneira de gerir a situação é estruturar tudo até ao pormenor. Foram crianças educadas com pouca liberdade. Há momentos em que ainda vejo isso no Pax. É um miúdo cheio de amor. Mas há nos olhos dele um bocadinho da vida que ele teve no orfanato. Há momentos em que precisa mesmo de saber onde é que estão as coisas dele. Há aspetos por resolver. Há sempre aspetos por resolver quando fomos programados de certa maneira.

E como conseguiu fazer um filme de ação, em que aparece em quase todas as cenas a dar murros e pontapés, pouco tempo depois do nascimento dos gémeos?
De facto, comecei a trabalhar no filme logo depois de ter feito a cesariana, quando tive os gémeos. Depois de um período de recuperação, comecei a sair mais de casa. Tentei mesmo voltar a fazer jogging, mas ainda demorei uma semana até poder correr como dantes. Mesmo quando já estávamos nas filmagens, houve um ponto em que pensei que não iria aguentar. Mas, aos poucos, também com a ajuda dos ensaios e de toda a outra preparação, fui ganhando força. Acho que, no fim, foi o filme que me deu uma grande ajuda na fase pós-operatória. Quando ficou tudo pronto, aí senti mesmo que tinha voltado à minha grande forma de antigamente.

Mas de certeza que estamos a falar da mesma coisa? Poucas semanas depois de dar à luz gémeos foi fazer cenas em que teve de subir às paredes e conduzir motorizadas a mais de cem à hora?
Na cena em que eu corro pela parede acima, disse-lhes logo que não ia estar à altura. Mas eles propuseram que eu usasse uns ténis especiais e, quando menos esperei, estava a conseguir correr por uma parede acima. Portanto, nessa tive sorte. No caso da moto, há tanto tempo que já não guiava uma. Mas o Brad anda sempre de moto de um lado para o outro, e eu às vezes vou com ele, atrás. O que fizemos desta vez foi: ele pegou numa moto, eu peguei noutra, e fomos dar umas voltas. Foi um instante para me lembrar de tudo.

Como é que consegue aliar o seu trabalho – de muita responsabilidade, não só no cinema mas também nos foros políticos e humanitários internacionais – com a vida de todos os seus filhos?
A minha carreira, o meu trabalho, tem sido uma bênção que, de certa maneira, foi posta à minha disposição e dos meus filhos. Não é só o tempo que podemos passar juntos. É o facto de haver dinheiro para termos esta vida. Foi-nos possível ir viver para o sul de França, por exemplo. Ou quando estou a filmar em Itália, de aprenderem italiano e a História do país. Não faz ideia do que eles aprenderam sobre Veneza, agora que estive lá a filmar com o Johnny Depp. A minha vida é, realmente, uma oportunidade fantástica para eles. Depois, ainda alugámos um carro e fomos com os miúdos a Florença. Estivemos a mostrar-lhes o "David", de Michelangelo. Em França, aprenderam o idioma e muitas coisas sobre a revolução francesa. É bom que eles tenham acesso a países onde se vive de maneira diferente da realidade americana. Onde as pessoas dão atenção ao que vale a pena. Tiram partido do tempo. Onde há sempre espaço para a família. Tem sido mesmo bom – não só para eles, mas para toda a família – termos passado tanto tempo juntos naqueles longos almoços franceses, ou em mais uma jantarada italiana que vai pela noite fora. Isso tudo e a possibilidade de podermos dar passeios a pé com os nossos filhos, à descoberta, juntos.

Na América, esses momentos ao ar livre, de qualidade, têm sempre um ar urgente e apressado. Já a Europa oferece-nos um ritmo que nos tem beneficiado a todos.

Publicado na Revista Única do Expresso de 14 de Agosto de 2010
 

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