A Familia

Abuso emocional em Casais

casais(1)

A abordagem do “abuso emocional”, particularmente em casais, que é um padrão de comportamento interpessoal marcado pela violência psicológica de um dos elementos do par, sobre o outro, é uma matéria relativamente recente na psicologia clínica, mas seguiu os mesmos, necessários e urgentes passos de qualquer outra busca sistematizada para investigar e caracterizar condutas socialmente desviantes e atentatórias da liberdade, dignidade e independência pessoais. Entretanto, também nesta matéria, e tal como em muitas outras associadas à saúde mental ou à física, o que decorreu foi o “baptismo de um fenómeno e uma reflexão” sobre realidades há muito percepcionadas, e evidenciá-las de um todo que, por razões culturais e sociais, até era comummente “aceite” como fazendo parte da “normalidade” entre pessoas ligadas pelos afectos ou, mais simplesmente, por laços de intimidade, em namoros, casamentos ou ligações de facto. Bastará uma simples pesquisa na memória de avós e até de pais, ou considerar os conteúdos de alguns filmes ou letras de alguns fados tradicionais para se perceber quão antiga é esta prática, até há pouco, esmagadoramente, da responsabilidade dos homens. Há uma geração, ou duas, atrás, a própria definição de um “bom marido”, nas classes mais populares, nem sequer contemplava a ausência desta tendência ou manifestação evidente como uma “qualidade” melhor classificada na hierarquia: primeiro estaria o ser trabalhador e “amigo de trazer para casa”, seguido de não ser bêbado e de não bater na mulher…
Embora se continue a valorizar mais a agressão física na violência doméstica, pelas razões óbvias das suas consequências visíveis (e ultimamente a contribuírem assustadoramente para a dramática estatística dos homicídios qualificados), o “abuso emocional”, excluindo o risco de vida imediato, mesmo sendo causa relativamente frequente de suicídios, tem, quase sempre, consequências trágicas na vida emocional e afectiva dos/das abusados/as.
O abuso emocional, tal como qualquer outra acção psicológica que vise a destruição da identidade individual, da dignidade, da auto-estima e da liberdade, cujo exemplo mais comum é a chamada “lavagem ao cérebro”, pretende alcançar o domínio e o controlo sobre a pessoa abusada através do medo; da restrição indirecta ou directa da sua liberdade e da imposição de um clima de coacção emocional tendente a submergir a vontade individual, a modelar comportamentos e atitudes conformes aos desejos do abusador, a provocar o isolamento familiar, social e afectivo e a criar uma dependência absoluta em relação ao agressor, pela desvalorização do seu “eu” global, das suas ideias, atitudes, sentimentos e comportamentos. As ameaças de violência física, da exposição pública das hipotéticas falhas ou defeitos ou até do abandono tumultuoso da relação, com versões de homicídio ou suicídio, numa evidente chantagem emocional; o terror infundido através de constantes crises de violência verbal ou violência sobre objectos; o desprezo ostensivo perante queixas ou lamentações e a ignorância dos sentimentos; o aviltamento em relação aos saberes ou práticas culturais ou domésticas; o controlo permanente (policiamento) sobre as actividades e, por vezes, as humilhações sexuais acabam por conduzir o(a) abusado(a) a uma contingência de submissão, marcada permanentemente pela necessidade de não importunar ou provocar explosões de mau humor no abusador/abusadora, anulando assim progressivamente, a própria existência autónoma. Por vezes sucede, de modo comum com outras situações de elevado stress, violência e dependência, que a vítima acaba por se “identificar” com o agressor, desculpando-o, “compreendendo-o” e defendendo-o de terceiros, racionalizando assim “patologicamente” a situação de “vitimização” que, às vezes, o agressor assume no casal, invertendo paradoxalmente as posições de vítima e carrasco. Nesta fase, sem uma intervenção exterior, o ciclo do abuso emocional tenderá a perpetuar-se sem esperança nem apelo.
As armas utilizadas na destruição da identidade da vítima são, como já foi referido, a violência, em múltiplas formas, claras ou dissimuladas; o sarcasmo, o ridículo, a mentira ou distorção grosseira da verdade; o isolamento familiar, social e afectivo; a discriminação, a depreciação, a humilhação e a indiferença pelos sentimentos e o desprezo pela pessoa; o abuso sexual, o controlo absoluto de todos os passos e a vitimização, com inversão dos papéis. Por vezes, o contexto em que se desenrolam todas estas agressões formata-se como uma relação de senhor(a)/criada(o) ou patrão(patroa)/empregada(o), explorando apenas as utilidades do casal mas sem lhe conceder laços afectivos.
Convém salientar que as consequências para o abusado não se extinguem nas sequelas psicológicas do abuso: frequentemente as consequências estendem-se às perturbações psicossomáticas, às cefaleias, à depressão e às doenças infecciosas “oportunistas”, típicas de sistemas imunitários enfraquecidos, no caso, por sujeição a stress constante e, eventualmente, má nutrição e sono de má qualidade.
A questão premente que se coloca, entretanto, é a de saber porque é que o abuso emocional acontece.
Independentemente de causas psicológicas subjacentes, que têm, sempre, um peso importante, parece um dado adquirido que os fundamentos culturais, sociais, ideológicos e religiosos terão um papel preponderante nos comportamentos de abuso emocional. Seja por “respeitar” uma tradição, como a da subalternização moderada da mulher na herança judaico-cristã, ou radical, no islamismo; seja por uma visão conservadora e reaccionária do homem sobre a mulher, também herdada da prática ancestral (estatisticamente é mais relevante o abuso por parte do homem); ou ainda porque o exercício do poder económico, sem suportes éticos e morais facilmente extravasa para o exercício do poder pessoal arbitrário, estes factores facilitam ou agem directamente como desencadeantes do abuso.
 Na actualidade, a manutenção e o agravamento destes comportamentos, em oposição a uma maior abertura sentida em relação à igualdade dos direitos do género e à defesa da individualidade radicam-se na impunidade social de que gozam (a abrangência das leis sobre a violência doméstica ainda não contempla o abuso emocional), e no espírito que governa a administração formal, ou informal, da justiça, tendencialmente contrário às leis do condicionamento operante, que, como se sabe, influenciam de forma capital os nossos comportamentos, ao mantê-los e ao aumentar a sua frequência se existirem reforços nas suas consequências (no caso, pelo prazer de dominar), ou a extingui-los ou debilitá-los se os resultados forem negativos (punição ou ausência de reforço).
Evidentemente que um comportamento que contempla um maquiavelismo comportamental terá que ter, nas variáveis psicológicas, também um determinante essencial.
Em termos teóricos, mas suportada por bastante investigação empírica, sugere-se que as dificuldades na formação do Vínculo afectivo e social poderão ter muita importância nos comportamentos futuros de abuso ou de vitimização de abuso. O Vínculo é a capacidade de estabelecer e desenvolver laços afectivos e sociais; competências cuja formação se inicia, nos seres humanos, após o parto (e, eventualmente, até, durante a gestação) através do relacionamento com as pessoas mais próximas, como a mãe, o pai ou outros. Quando estabelecido deficitária ou tumultuosamente, o Vínculo parece ser responsável por uma evolução insegura quanto aos modelos de representação na vida adulta, com resultantes dificuldades nas relações pessoais, particularmente, nas de maior proximidade afectiva. Crianças maltratadas, abusadas, que sofreram de “hospitalismo” ou puramente abandonadas e, portanto, com problemas na formação do Vínculo afectivo e social mostram tendência para, mais tarde, ou serem vítimas de abuso ou agentes de maus-tratos e outras violências sociais.
O ciúme patológico e o abuso do álcool e de outras drogas, nomeadamente, cocaína e anfetaminas estão, também frequentemente, a montante do abuso emocional, tal como de outras formas de violência doméstica.
As perturbações da personalidade, como a Perturbação Paranóide, a Perturbação Esquizotípica, a Perturbação Anti-social, a Perturbação Estado-limite, Perturbação Narcísica e a Perturbação Histriónica da Personalidade são transtornos que, por vezes, também se associam ao abuso emocional mas, estatisticamente, com uma menor frequência que a do já aludido consumo de álcool e drogas.
Igualmente se verificam casos de abuso emocional na Doença Bipolar. Neste caso, de particular difícil abordagem, por combinarem condições mórbidas com factores afectivos e meramente comportamentais.
O combate ao abuso emocional no casal, tenha este a composição que tiver e independentemente do sentido do género em que ocorra tem diversas frentes. Uma delas é, claramente, a intervenção legal. A legislação tem que ser adequada a este tipo de agressões e a forma do seu reconhecimento divulgada amplamente em campanhas de informação. Para que a intervenção legal ocorra é, evidentemente, decisivo o conhecimento dos factos, o que sugere uma grande necessidade de que este tipo de abuso seja bem tipificado e considerado “crime público”, o que aumenta as probabilidades da sua denúncia e tratamento jurídico.
A intervenção psicológica de orientação cognitivo-comportamental oferece uma boa capacidade de definição das estratégias para lidar melhor com os problemas de abuso emocional, quer sob a perspectiva do(da) abusado(a); quer sobre a do abusador(a), avaliando as possibilidades de sucesso terapêutico individual e no casal, ou de ruptura definitiva das relações, de forma não violenta, ou ainda da necessidade de intervenção de outras valências da saúde mental ou das instâncias legais apropriadas.
Mas, é na prevenção que, nesta área, tal como em quase todas as outras situações de abuso deve incidir o maior esforço social, através de campanhas, oficiais ou oficiosas que, com maior ou menor complexidade filosófica ou prática transmitam, de forma impressiva que, na verdade, a origem deste e de muitos outros problemas de relacionamento social e afectivo reside no facto de não entendermos que, entre nós, somos todos iguais e de que, por essa razão, todos pertencemos uns aos outros.
 
Colaborador do Portal amulher.com

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